Mudança de Plano

(publicado no livro “Sonhos de Natal”, em co-autoria, Editora Casa do Livro, 2001)

Encontro hoje no meu pré-consciente uma lembrança de um carrinho azul claro, na sala de visitas, parecido com o carrinho de bonecas que eu havia ganhado do Papai Noel, no último Natal. Só que este que estava na sala, era bem maior. Lembro-me que fiquei olhando, de longe, com um certo receio de me aproximar; as pessoas grandes passavam pelo carrinho azul, olhavam para dentro dele, despertando a minha curiosidade.

Uma criança de dois anos, naquele tempo, não compreendia o mundo e as pessoas como as crianças de dois anos o fazem hoje. Por isso, eu demorei um pouco para descobrir que eu tinha um irmãozinho chamado Ulisses. Alguns o chamavam de Lissinho.

 Eu estava envolvida com minha boneca predileta e com as músicas cantadas pelo Carequinha nos discos de vinil tocados na minha “sonata”; meu egocentrismo não permitiu que eu registrasse muitos detalhes sobre a presença de mais uma pessoa na minha família. Quando aprendi a contar nos dedos, descobri que éramos quatro: papai, mamãe, eu e meu irmãozinho caçula.

Aos domingos, todos me levavam para cantar e dançar no “Clube da Cirandinha”, programa apresentado por César Muanis. Meu irmãozinho sentava quietinho na platéia, junto com papai e mamãe e até me aplaudia.

Mamãe gostava de nos fantasiar nos carnavais e num deles, Ulisses também estava fantasiado: de Nero. Ficou “emburrado” o tempo todo, porque estava “de saia” e sorriu apenas quando papai lhe ofereceu um pastel.

A mudança para uma casa na vila Hercília foi oportuna para nós dois. Era um bairro com muitas crianças, brincando de empinar pipas, bola queimada, passa-anel, na pracinha da igreja São Benedito. Troquei o Carequinha, pela “garota papo firme que o Roberto falou” e com a minha “sonata”, brincava de “cover” com os ídolos da jovem guarda.

Diante de Ulisses, era inevitável o comentário de qualquer pessoa:

-Que olhos verdes bonitos!

Eu tocava piano para as visitas e brincava de teatrinho na garagem. Isso me garantia um bocado de reconhecimento e atenção pelos meus talentos, para compensar os olhos, que não são verdes. Demorou um certo tempo para eu compreender a genética que determinou meus olhos castanhos e para sentir que eles também são bonitos.

Certo dia, caminhando pela calçada da rua Conselheiro Lafayete, eu encontrei uma pedra de formato arredondado, com um brilho diferente. Levei-a para casa, sem saber porque e sem saber o que eu iria fazer com ela. Quando mostrei a pedra para Ulisses, ele olhou-me bem nos olhos e disse:

-Dá pra mim?

Eu dei e me esqueci disso.

Não brigamos pela pedra, mas brigamos muito por bobagens, como dois irmãos normais o fazem, treinando a competição pelo espaço, pela atenção. Até que um dia, papai escreveu a giz na minha lousinha antes de ir trabalhar: “quando um não quer, dois não brigam, principalmente quando são irmãos”. Então, eu aprendi o que é cooperação e segui meu caminho exercitando administrar conflitos. Fomos crescendo no tamanho e na qualidade do relacionamento.

Passamos o final da infância e a adolescência na casa da rua Ondina, onde havia um quintal com uma frondosa goiabeira. Ulisses brincava com seus carrinhos num tanque de areia e eu me arriscava a subir nos galhos da árvore para apanhar suculentas goiabas. De lá de baixo, ele me incentivava subir cada vez mais alto, mas quando sentia que eu estava correndo riscos,  tentava me proteger, dizendo:

-Se você não descer daí, eu vou chamar a mamãe.

Aprendi então, a correr riscos calculados.

Ulisses se tornou fisicamente forte, musculoso, levantando pesos no quintal de nossa casa. O tanque de areia e a goiabeira deram lugar a uma piscina, onde nós nos divertíamos muito quando eu vinha da Universidade de Campinas para casa nas férias e nos finais de semana prolongados. Quando terminei meu Curso, voltei para a casa da rua Ondina; ele foi para a Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo. Casou-se e fazia a maior questão de me anfitrionar na capital como um verdadeiro gentleman, quando eu lá passava a trabalho ou a passeio. Ele sabia que eu gostava de jantar nas cantinas do Bexiga e também me levava para fazer compras, junto com sua “Pipo”, eterna namorada.

Eu poderia ficar aqui descrevendo muitas e muitas lembranças que tenho e que sempre terei deste menino que recebeu nome de herói e que acabou sendo um deles na luta pela própria vida, como na Odisséia.

Um dos e-mails que recebi por ocasião de seu falecimento me comoveu muito: “ele não venceu o câncer, mas venceu no câncer”. Teve apenas três décadas para desenvolver sua capacidade de desprendimento da matéria e vencer todos os obstáculos que um jovem pode vencer para obter sua transcendência.

Planejei envelhecer ao lado dele, celebrando a vida no seio de nossas famílias e um dia muito distante, recordar com ele tudo isso que recordo agora, sozinha.

No último dia do ano passado, lembro-me de Ulisses sentado numa cadeira na varanda da chácara, assistindo ao espetáculo pirotécnico montado por um casal de amigos para distraí-lo e alegra-lo, nos poucos momentos de alívio de sua dor física e psicológica. Vendo o céu cheio de estrelas e de luzes coloridas, ele olhava para cima e sorria.

Hoje, lamento não ter me aproximado mais cedo do carrinho azul e não ter ensinado a ele as músicas do Carequinha. Sua existência foi um presente para mim.  Ainda ouço sua voz, sua risada.  Vejo os tons de verde dos seus olhos nos olhos do meu primogênito e nos tons da grama esmeralda do Condomínio Damha, quando caminho pelas margens da represa. Então eu me permito chorar e chorar muito, até esta tristeza passar. Olho para o céu com a esperança de que ele compreenda meu egoísmo e que me dê um tempo para aceitar esta mudança de plano.

Neste Natal, vai doer não encontra-lo na varanda da chácara, olhando para o céu, mas vou imaginar que ele está olhando “do céu”, de uma das varandas da casa do Senhor. E que as luzes que ele viu explodirem num espetáculo de cores e simetria, estejam presentes iluminando nossos corações hoje e sempre.

A pedra que eu dei a ele na nossa infância estava guardada entre os seus pertences de estimação. Hoje saberei o que fazer com ela: símbolo que guardarei comigo de como as coisas aparentemente insignificantes podem se transformar em grandes lembranças de um tempo que não volta mais.



Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga (CRP 06/15951-5) e Escritora.

E-mail: katiaabr@terra.com.br

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