FILTRO SOLAR

Antes de passar a chave na fechadura, ela confere novamente se as janelas e portas estão fechadas, se os aparelhos eletrodomésticos e o computador estão desplugados. Finalmente, vira a chave duas vezes, entra no carro, em direção ao posto de gasolina mais próximo para abastecer, calibrar os pneus e verificar pela última vez se está tudo em ordem, mesmo após a revisão feita na oficina mecânica. O porta-malas, abarrotado, com uma mala para cada um. Em pensamento, confere a lista que fez, enquanto o frentista enche o tanque do carro de combustível: roupas leves, filtro solar 30 (deveria ter comprado 50, pensa recriminando-se), protetor labial e facial, hidratante pós-sol, máscara protetora para os cabelos, biquínis, boné, óculos escuros, chinelos, a Melissinha de verão, os livros que separou para ler caso esteja tempo nublado ou chuvoso, as carteirinhas do plano de Saúde, que ela espera não usar e os cartões de crédito, que com certeza, ela vai ter que usar.

Bem, parece que as malas foram rigorosamente arrumadas. Caso as roupas das crianças não sejam suficientes, com certeza, haverá uma lavanderia por perto...

Dirige o carro para a rodovia, contente, feliz, sonhando com a praia, o mar, o sol, o descompromisso com horários rigorosamente cumpridos. O desejo de se afastar por alguns dias de rotina adorável, porém, exigente, finalmente transforma-se em realidade.

Ela olha para trás e vê o sorriso das crianças, trocando olhares de cumplicidade. Estamos todos sonhando com dias maravilhosos, pensa.

Em voz alta e com a ajuda dos filhos, reza um Pai Nosso e a oração do anjo da guarda, pedindo proteção para esta viagem de férias.

Quando já caminharam bem uns 200km, uma parada para esticar as pernas e tomar um café, enquanto as crianças comem alguma coisa. O almoço está programado para São Paulo, com o tio Gerson, padrinho de um dos guris. Seguem em frente até a capital, metade do caminho para o destino traçado.

Gerson espera no ponto combinado e entre anchovas, sashimis e rolinhos primavera, conversam animados matando a saudade. Ao se despedirem, o padrinho vai até o carro, dizendo:

- Bom, como vocês não devem ter problemas de espaço no porta-malas, aqui está o presente de Natal do meu afilhado.

O pacote é do mesmo tamanho do guri, que se emociona com o papel reluzente e a dimensão. Ela imediatamente calcula se haverá espaço no porta-malas para tanto, não com a mesma certeza que o padrinho diz.

Entram no carro novamente em direção à rodovia. Um engarrafamento de uma hora e meia para sair de São Paulo desanima a todos, após um almoço japonês reforçado. Ela olha para trás e vê o guri quase sem cor, com uma cara de enjoado. Não tem muito tempo para conversa sobre o que está acontecendo. Um jato de vômito de coca-cola misturado com arroz shop shuei é amparado pelo pano destinado a limpar os vidros do carro, e uma parada forçada é feita para todos se refazerem.

Ela não contava com estes imprevistos. Prevenida, mas nem tanto, esqueceu a toalha de emergência em cima do sofá. Agora, tinha que contar com a sorte até a próxima parada.

Vai com um olho na estrada e outro no guri, terminantemente proibido de comer até chegar em Curitiba,  para seguir viagem no dia seguinte.

Ela torce para que não esteja chovendo em Curitiba e comenta:

- Há quinze anos, passo por esta cidade e nunca consegui ver o sol. Sempre está chovendo e fazendo frio em pleno dezembro.

O guri que estava deitado no banco de trás se levanta e com uma expressão facial destituída de emoção, diz:

-         Ih...Você não conseguiu de novo...

Ela não desanima, pensando no jantar no segundo maior restaurante do mundo. Com chuva ou sem chuva, este programa está garantido, pensa.

Após um banho quente gostoso e um jantar gastronômico, eles se perdem na volta para o hotel. De Santa Felicidade até o Centro de Curitiba, levam cerca de uma hora e meia entre paradas, voltas e consultas ao mapa. Tiveram sorte que, com tudo isso, o guri não tenha vomitado de novo. Exaustos, dormem para acordar no dia seguinte animados novamente em direção à praia, na ilha da magia.

            Nem mesmo o estouro de um dos pneus consegue tirar o bom humor. Malas para fora para tirar o estepe, todos colaboram para que o carro novamente role macio pela BR 101. Passam por Camburiu, Itapema, e a visão do mar é um estímulo para que todos continuem a sonhar com dias adoráveis pela frente.

A euforia toma conta das crianças ao chegar na cabana. Elas querem nadar na piscina, no mar, comer camarão, jogar bola, tomar sorvete, tudo ao mesmo tempo.

Ela tira da sacola de praia o filtro solar 30 e passa em todos, inclusive nela, recomendando que se espere um tempo de trinta minutos para penetrar bem. Após um pequeno discurso sobre os perigos dos raios solares, buraco de ozônio, queimaduras e ensolação, ela libera os guris que saem correndo em direção ao mar espantando um bando de gaivotas que descansavam na orla.

O barulho das ondas quebrando na praia, o azul do céu aberto, sem nuvens, tocando sua pele protegida pelo filtro solar dá a ela uma sensação agradável. De vez em quando, ela acena para os guris que pegam jacarés e mergulham como há muito tempo não faziam nesta fartura de água.

Passa um dia, dois, três, e aquela mistura de areia com água salgada vai dando um bronzeado dourado em seu corpo. Está tudo muito bom, exceto um ligeiro incômodo nas costas, como se fosse um arranhado ou coisa assim. Ao voltar para a cabana, ela toma um banho e totalmente nua, olha-se no espelho, virando-se para tentar descobrir o que há de errado com suas costas.

Descobre uma cor avermelhada, destoando com o resto de seu corpo moderadamente bronzeado. Só agora ela se dá conta que não passou filtro solar nas costas. O motivo? É o único lugar onde suas mãos não alcançaram...E o que é pior, muito pior que o incômodo da queimadura, é saber que ela não ousou pedir para nenhuma outra pessoa fazer isso para ela...

Kátia Ricardi de Abreu

Verão de 2002


Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga (CRP 06/15951-5) e Escritora.

E-mail: katiaabr@terra.com.br

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