JOGOS PSICOLÓGICOS
Apesar do nome, não são divertidos. Podem ser "banais" ou trágicos. O
mais trágico de todos, chama-se "guerra".
O Dr. Berne, um psiquiatra canadense, definiu jogos psicológicos como "uma série de
transações (ações e reações entre as pessoas) de natureza repetitiva, com um
desfecho definido".Berne desenvolveu o conceito de "jogos psicológicos"
para explicar o relacionamento negativo e como interrompe-lo para que as pessoas possam
ser mais felizes.
Os jogos começam quando uma pessoa diz ou faz uma coisa socialmente aceita, querendo
dizer ou fazer outra, num nível oculto, ulterior, psicológico.O estímulo ulterior é
chamado de "isca", pois pretende "enganchar" a pessoa que possui um
ponto fraco que pode ser o medo, a ganância, a irritabilidade, o sentimentalismo. Quando
a pessoa que recebeu os dois estímulos (social e psicológico) responde ao estímulo
ulterior, deu-se início ao jogo. Em seguida, o primeiro jogador aciona um tipo de
mudança no seu comportamento, onde o segundo jogador sente-se confuso e perplexo, sem
entender o que está acontecendo, como se tivessem lhe tirado o chão. E o desfecho disso
tudo é uma sensação de frustração e mal estar, um "bater de portas".
Os jogos são inconscientemente ensinados pelos pais aos filhos e transmitidos de
geração em geração. As pessoas jogam, portanto, para sobreviver no ambiente familiar,
adaptando-se aos modelos de relacionamento fornecidos pelos progenitores e figuras
emocionalmente significativas (avós, tios, etc) e assim, obter atenção, aprovação e
carinho. Depois, repetem pela vida afora, com outras pessoas (amigos, cônjuge, colegas de
trabalho, etc), na tentativa de tornar os relacionamentos previsíveis.
Berne publicou "Os Jogos da Vida" (Artenova, 1977). Seus discípulos
desenvolveram suas idéias: Claude Steiner publicou "o Outro lado do Poder"
(Nobel, 1984), que aborda os jogos de poder oferecendo a alternativa de relacionamento
baseada na crença de que é possível ser poderoso sem ser competitivo através da
utilização de opções nas quais a realização do poder não depende da redução do
poder do outro. Steiner abomina o poder de controle e a manipulação que faz com que o
poder seja disponível para alguns poucos se apoiando na retirada do poder de muitos.
Trata-se de um verdadeiro convite à humanidade, para que as pessoas, as organizações e
as nações possam crescer e se desenvolver sem destruição, usando o poder para o bem
comum. Berne e seus seguidores, membros dos Seminários de Psiquiatria Social de San
Francisco, desde 1964 demonstravam uma consciência social e percepção das questões
internacionais.
Petruska Clarkson, escreveu um artigo no Transactional Analysis Journal sobre Jogos de
Omissão. Segundo ela, na medida em que as pessoas se omitem diante de situações
conflituosas ou consentem com a omissão nas suas vidas pessoal, profissional,
organizacional, emocional, global, apóiam a destruição: "A física moderna afirma
que todos os observadores são parte do campo observado. Portanto, se as pessoas têm
consciência de um problema, provavelmente estão perpetuando ou agravando-o se não
estão envolvidos ativamente na sua solução".
Clarkson relaciona alguns jogos de omissão, tais como: "Não é da minha conta"
ou "Pôncio Pilatos"; "Não tenho toda a informação";"Eles que
se queimem"; "Quero ficar neutro"; "Só estou dizendo a verdade (para
outros) como eu a percebo"; "Sobre o muro"; "Minha contribuição não
fará muita diferença"; "Deixa Quieto" e outros. Todos estes jogos podem
ser interrompidos na medida em que, escolhemos ser parte da solução diante de um
problema.
Os convites para "jogos" e relacionamentos tóxicos existem. Cabe a cada um de
nós recusar-se a jogar. Isso pode significar o rompimento do relacionamento, em alguns
casos, onde o jogador insiste e insiste em reproduzir hoje o mal estar aprendido na
infância. A inteligência emocional é a arma mais poderosa no combate aos ataques quer
eles sejam pessoais ou mundiais.
Assim, ataques terroristas estão acontecendo todos os dias, quando somos desconsiderados,
desqualificados nas nossas emoções, pensamentos e ações; quando somos julgados baseado
em informações distorcidas ou incompletas da realidade; quando somos alvo de projeções
inconscientes, de reações transferenciais negativas; quando somos "bode
expiatório" de pessoas que colecionam "figurinhas" de raiva querendo
trocá-las por uma briga; quando recebemos ataques invejosos. Podemos desmoronar dia a
dia, como o World Trade Center, dentro de nós mesmos, morrendo e morrendo pelas
desconsiderações sutis ou declaradas que permitimos. Ou ainda, podemos desenvolver o
outro lado do poder, onde todos nós temos ao nosso alcance imediato o poder duradouro do
amor, da intuição, da comunicação saudável, da cooperação, que pode conseguir o que
desejamos e que nos fará genuinamente felizes, conforme ensina Steiner.
O relacionamento livre de "jogos" pode ser exercitado em qualquer lugar onde
existam pessoas: dentro da família, com vizinhos, amigos, no círculo social, entre os
dirigentes, líderes de uma cidade ou nação. Acredito na ecologia humana e acredito que
a paz começa dentro de cada um de nós.
Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga (CRP 06/15951-5), Analista Transacional Membro Clínico Certificado pela ALAT e
UNAT-Brasil.
e-mail:katiaabr@terra.com.br.
| Envie esta página para um amigo |