GUERREIRAS
Eu sou a Emília, Condessa de Três Estrelinhas e Marquesa de Rabicó, fada de pano, bailarina eqüestre, trapezista de circo, botadeira de nomes, inventadeira de idéias, etc.etc.etc.
Atrevida e orgulhosa, a personagem de Monteiro Lobato, Emília, criada na década de 30, não vacila em nomear seus atributos, em oposição à sua dona, Narizinho, que com oito anos de idade já sabe fazer uns bolinhos de polvilho muito gostosos. Lídia Aratangy, autora de Desafios da Convivência (editora Gente), aponta a disputa de espaço de Emília e Narizinho, dentro de nós, mulheres, setenta anos depois.
Hoje, mais felizes, considerando algumas conquistas como a liberdade sexual em função da pílula nos anos 60; o divórcio em 1977; a invenção das fraldas descartáveis, em 1951; do sutiã, que libertou a mulher de apertados espartilhos, em 1914; do absorvente descartável, em 1930, que chegou ao Brasil apenas três anos depois, e o ohne binden, que quer dizer, sem absorvente, o popular O. B., que apareceu em 1950, na Alemanha, lançado no Brasil apenas em 1974. Ah!, esqueci-me do aspirador de pó, em 1901 e a máquina de lavar roupas, em 1915, fabricada em escala industrial somente após a Segunda Guerra.
Tais invenções, contribuíram para que a mulher se tornasse mais livre em casa, na cama e na vida. Mas a desigualdade ainda existe e a discriminação também. Posso senti-la, às vezes, na minha própria pele, em pleno século XXI.
A Revista EXAME revelou recentemente, em reportagem de capa (edição 732), o lugar das mulheres no mercado de trabalho brasileiro: somos cerca de 40% . E o mesmo jornalista responsável pela matéria, David Cohen, afirma na Revista VOCÊ s.a. (edição 32): não há a menor dúvida de que elas estão avançando muito no mundo corporativo, e o jeito feminino é visto por um monte de consultores como o ideal para as empresas. No entanto, das 100 melhores Empresas para se trabalhar, no Brasil, só 7,7% têm diretoras. Poucas, portanto, chegam a cargos de chefia. A questão por trás disso é que o mundo do trabalho é identificado com valores masculinos: objetividade, agressividade, rapidez, diz Cohen. É claro que esta é apenas uma das razões.
Muitas vezes ser mulher é uma vantagem, na medida em que as qualidades altamente valorizadas no mercado de trabalho são as ditas femininas: flexibilidade, capacidade de negociar, mediar, inovar, aponta Marta Suplicy.
O que nós não podemos nos esquecer é que, se por um lado, o universo do trabalho lucrou com o ingresso das mulheres, por outro lado, a dinâmica familiar obteve benefícios da contribuição masculina. E as diferenças podem se completar na formação de uma sociedade onde inexiste privilégio de um gênero sobre o outro.
Agora que conquistamos espaço no mercado de trabalho e aprendemos a conciliar nossos papéis, podemos construir uma nova história, na qual mulheres e homens terão que encontrar novos pactos de convivência, novas referências de relacionamentos públicos e privados.
Podemos aprender a lidar com a solidão, vencer o sentimento de culpa, encontrar um ponto de equilíbrio para o consumo excessivo, deixar de ser escravas de padrões de beleza absurdos, abandonar a tirania alimentada por nós mesmas da balança, da moda, dos modelos de juventude e beleza, valorizando e qualificando também a maturidade emocional. Podemos ter a alegria de poder escolher com quem, onde e como queremos ir, desenvolver relacionamentos saudáveis, providos de autonomia, ao invés da tradicional simbiose: eu só vou se você for, você só vai se eu deixar; e comungar da esperança de um mundo melhor, onde o compromisso maior seja com a ternura.
Nosso desafio, segundo Anália Ribeiro, coordenadora do Programa Nacional de Proteção a Testemunhas, será aprender a ser mulher, pronta para amar os filhos e o companheiro, administrar o lar e continuar sendo a profissional que revolucionou a história da humanidade, sem medo de ser feliz.
Cada uma do seu jeito e na sua época, muitas mulheres abriram caminhos para nossas conquistas. Citarei apenas algumas: Alzira Soriano, Ana Pimentel, Maria Quitéria, Maria Bonita, Leila Diniz, Escrava Bernarda, Maria Lenk, Hortência, Sandra e Jaqueline, Isabel, Fernanda Montenegro, Chiquinha Gonzaga, Luz Del Fuego, Elis Regina, Marta Rocha, Marquesa de Santos, Princesa Isabel, Chica da Silva, Condessa de Barral.
Já não precisamos (nem podemos) mais escolher entre carreira e amor. Quando eu fazia entrevistas com candidatos , na Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho do Estado, uma das perguntas era:"por que você deixou o seu último emprego?. Há cerca de dez anos atrás, a resposta mais freqüente das mulheres para esta pergunta: "parei para casar. Acredito que hoje, ficamos com ambos, o amor e a carreira e em ambos nos esmeramos. Nosso lugar é no mundo e não mais apenas na cozinha. E quando estamos lá, na cozinha, sonhamos com alguém ao nosso lado, para cozinhar juntos e para amar.
Kátia Ricardi de Abreu
Verão de 2001.
Kátia Ricardi de Abreu é Psicóloga (CRP 06/15951-5), Analista Transacional Membro Certificado Clínico pela ALAT e Escritora.
e-mail:katiaabr@terra.com.br.
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