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RELAÇÕES DESUMANAS NO TRABALHO I

Enquanto ela aguardava feliz a chegada do ônibus, dava retoques finais com olhares e passadas de mão na vestimenta caprichada. Um fio de linha aqui, um esbranquiçadinho lá, e toda a sua alegria estava aflorada...finalmente o grande dia....Com certeza, demonstraria toda sua capacidade, todo seu talento, sua garra, sua competência, sua vontade de vencer na vida (acaso já não seria ela uma vencedora?). Tal como rapariga que inicia um novo namoro, estava disposta a demonstrar suas qualidades com toda a evidência que a modéstia lhe poderia permitir.


Finalmente aponta na esquina o veículo que vai conduzi-la até o prédio cinza e azul. O primeiro dia de trabalho é sempre muito emocionante, cheio de expectativas.


Antes de abrir a elegante porta de vidro, confere se o batom está deslocado de seus grandes e carnudos lábios. O espelho de bolsa indica que nada mudou, desde que saiu de casa.

Corajosamente, seus olhos procuram por pessoas que possam lhe indicar onde será sua sala, sua mesa, seu espaço para produzir tudo o que tem armazenado e que ainda vai armazenar pelos anos afora. Encontra olhares pouco acolhedores, mas não se assusta. "Afinal - pensa ela - nem tudo é perfeito".


-Você está procurando alguém?


Um rapaz de ombros largos, braços compridos e desajeitados, dirige-se a ela, mais para intimida-la do que para ajuda-la.


-Sim, estou procurando o Sr. Raul. Foi ele quem fez a seleção e a entrevista. Sou a nova funcionária.


Ela estende a mão, gelada e trêmula. O rapaz não registra o gesto e diz:


-Então, não é comigo. Eu não sou o Sr. Raul. Continue perguntando. Até o final do expediente você o encontrará, se tiver sorte.


Perplexa, seus pés não conseguem sair do chão para caminhar até o próximo ser supostamente humano daquela empresa. Como um balde de água fria em seus cabelos deliciosamente cheirosos, a recepção "calorosa" daquele jovem, mais parecido com o Hulk - aquele monstro verde dos seriados da televisão- transformou os primeiros minutos de seu primeiro dia de trabalho num pequeno episódio de tortura civilizadamente selvagem.


-Sobreviverei - pensa ela, enquanto caminha até o elevador.


Caminha até as salas do primeiro andar, onde realizou os testes e as entrevistas de seleção, lentamente, agora mais ressabiada. De repente, um rapaz com um copo de café fumegante na mão, gira rapidamente para trás sem notar sua presença. Desastre total! Sua roupa, rigorosamente passada e preparada na noite anterior, estava toda bordada de marrom. O café escorria por entre as pernas revestidas de meias de náilon aderentes, com lycra. Um caos...sem dúvida nenhuma, não foi isso que ela havia sonhado na noite anterior!


Assustado, o rapaz lhe pede desculpas, muitas desculpas, enquanto procura um guardanapo para ajuda-la a melhorar o aspecto de seu vestido de linho creme.


-Não fique constrangido, o café quente foi mais agradável do que o olhar glacial do Hulk.
-Hulk? Quem é esse?


-Oh!!!Na verdade, ainda não sei ao certo. Sei apenas que ele deve ter muita raiva de ter nascido!

O jovem sorri.


-Ah! Deve ser o Aurélio. Ele é terrível!


-Ele é de mal com o mundo, pelo jeito!


-Não liga, não. Até os clientes já estão acostumados!


Preocupada com esta observação, ela fica imaginando como deve estar o caixa desta Empresa que absorve um funcionário grosseiro inclusive com os clientes. Visivelmente desanimada, pensa em procurar o Sr. Raul para lhe dizer que desistiu, quando se lembra das contas já vencidas na estante da sala. Decididamente, agora não é hora de escolher emprego. Porém, uma coisa é certa -pensa - este lugar parece não ser aquilo que sonhei para mim.

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga (CRP 06/15951-5) e Escritora.

e-mail: katiaabr@terra.com.br

 

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RELAÇÕES DESUMANAS NO TRABALHO II



Ele não estava nos seus melhores dias, decididamente. Logo ao acordar, foi fazer um carinho na esposa e ela resmungou algo do tipo "agora não, deixe-me dormir". Já fazia um bom tempo que ele não conseguia encontrar a hora certa para uma cópula, ou uma trepada, ou uma relação sexual, ou um make love, seja lá o que for. Cansado de agradar, de presentear, de sabonetear, decidiu que iria ter uma séria conversa com a esposa quando voltasse do trabalho, à noite, antes de dormir. Foi para o banheiro tomar uma ducha gelada para se acalmar. Muito excitado, pensou no quanto era duro trabalhar mais um dia com aquele enorme tesão. Perfumou-se e foi novamente em direção à cama. Ela estava deitada numa posição incrivelmente erótica, com os cabelos espalhados pelo travesseiro, dormindo como um "anjo". Chegou mais perto e sentiu aquele cheiro que só ela tinha, uma mistura de seu perfume habitual, com o xampu, com o creme hidratante. Um saldo bombástico em sua pele macia, sedosa, que ele não resistia em tocar, nem que fosse em alguns poucos poros. Ela se virou, abriu um pouco os olhos e deu de cara com aquele homem totalmente nu, com os respingos do banho ainda sobre o seu corpo atlético, embora uma discreta barriguinha teimasse em aparecer, apesar dos incansáveis exercícios físicos diários que ele fazia religiosamente todos os dias. Resmungou novamente e voltou a dormir.


-    Oh, não!! - pensou ele....ou será que ele murmurou?


Ainda sem acreditar que não havia mais tempo para nada, ele se veste displicentemente. Pega qualquer camisa, qualquer calça, qualquer meia, qualquer sapato. Nada combinando. Mas ao se olhar no espelho, rapidamente, pensa que o pior de tudo não é aquela horrível descombinação de cores comprometendo o seu estilo. O pior de tudo é a sua desorganização interna, o seu desejo não satisfeito, desejo este, não apenas de ordem sexual. Desejo de amar, de ser amado por aquela mulher que dormia ao lado dele todas as noites e que o deixava a ver navios quando ele mais queria. Queria o olhar dela, queria o sorriso dela, queria a atenção dela, queria a proteção dela e por que não? Queria aquele corpo dela em contato com o seu numa explosão de cheiros, de secreções, de salivas, de sussurros, de gritos, de êxtase.


Já no ponto de ônibus, lembra-se que nem sequer tomou o café preto que ele tanto gosta. Esqueceu-se de comprar pó no dia anterior. Decide tomar o café no bar da esquina, antes de entrar na empresa onde trabalha. Antigamente, tomaria o café servido na própria empresa. Bons tempos aqueles...Agora, o café foi cortado para diminuir as despesas. Foi a primeira medida que o novo chefe tomou, logo ao assumir o cargo.


-Nada de idas e vindas e rodinhas na cozinha.


Foi o que o seu chefe imediato disse, todo satisfeito com as medidas de contenção de despesas


-Contenção de minutos de alegria, isso sim!

Agora o pessoal chega mais cedo e se encontra no bar do Joca para um Happy Cofee.
Isso acabou deixando os colegas de trabalho até mais unidos. Unidos contra o chefe, é claro. E, coisa interessante, depois deste episódio do corte do café, ele começou a perceber que os gráficos de produção andaram mudando de jeito. Para baixo, não para cima, como o chefe tanto queria.


-Será que é por causa do efeito da cafeína no organismo? Dizia um.
-Deve ser psicológico. Dizia outro.


-Isso é sem-vergonhice. É pressão para voltar tudo do jeito que era antes. Dizia o chefe imediato - mas não vai adiantar não, porque acabou a festa!


Festa! Quem diria! Um simples cafezinho, que fazia os colegas se reunirem na cozinha para contar alguns causos enquanto relaxavam um pouco para voltar a pegar no "trampo".


Ele avista o bar e vê um dos últimos colegas do seu departamento deixando o local.


-Tem reunião no início do expediente, não quero me atrasar - diz o colega.


Ele havia esquecido da reunião...justo hoje que não combinou direito as peças de roupa!
Sobe o elevador com aquele gosto de pasta de dente ainda na boca e dirige-se para a sua mesa, procurando pela agenda. Confirmado. Reunião no terceiro andar.


-    Lá vou eu! Seja o que Deus quiser!

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga (CRP 06/15951-5)e Escritora.

e-mail: katiaabr@terra.com.br

 

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RELAÇÕES DESUMANAS NO TRABALHO III


Desde que ela chegou aqui, não fui com a cara dela, não sei porque. Parece que ela me lembra alguém, mas não sei ao certo quem. Fico com raiva da sua postura sempre certinha demais, sempre adequada demais. Tudo é perfeitamente encaixado. O sorriso, o tom de voz, o jeito de se vestir, de andar, de comer. É irritante, simplesmente irritante conviver todos os dias com uma pessoa assim, tão melhor que eu...Às vezes chego a pensar que queria ser como ela. Depois fico me recriminando em desejar ser assim tão insuportavelmente bela, competente, inteligente, feliz. Perfeita ela não é. Ah, não é mesmo! Tem uma porção de coisas que eu consigo fazer e que ela não consegue. Tenho muitas idéias que ela nem sonha em ter. Mas as que ela tem, e que eu até já tinha tido, ela executa brilhantemente. Ela valoriza aquilo que eu penso não ser importante a princípio. Mas depois, vejo que é e então não me conformo de não ter acreditado nas minhas próprias idéias.


Não quero fazer comparações, não desejo mal algum a esta criatura. Apenas peço a Deus que a tire do meu caminho para que eu não me depare todos os dias com a minha própria limitação. Acho que no fundo, no fundo, quero mesmo ser como ela e não consigo. Nunca vou conseguir. Minha falta de humildade não me permite reconhecer que existem muitas pessoas que são simplesmente superiores a mim e que isso seria motivo de admiração e não de inveja. Inveja! Parece que é isso que eu sinto. E ela não tem culpa disso. Ninguém tem culpa daquilo que eu sinto.



RELAÇÕES DESUMANAS NO TRABALHO IV


Eu precisava falar com o chefe do Setor de Recursos Humanos. Minha chefe imediata recomendou que fosse falar diretamente com ele. Seria mais fácil reivindicar pessoalmente minhas férias vencidas.


Liguei antes para saber se poderia ir. A secretária me informou que sim, sem perguntar meu nome nem o que eu queria.


Subi dois lances de escada e dirigi-me à Recepção. Sentada numa escrivaninha, havia uma moça de cabelos desordenados, cenhos franzidos, blusa decotada sem sutiã.


-    Olá! Disse eu.

-    Liguei agora a pouco para falar com o chefe deste setor e...

-    Ele não chegou ainda - interrompeu-me ela.

-    Mas está para chegar, não é? Pelo menos foi o que você me disse...

-    Tudo bem, pode aguardar.

Havia um tom perverso na sua voz que me fez intuir que eu estava prestes a tomar um bom chá de cadeira. Achei estranho novamente ela não ter perguntado meu nome e muito menos o que eu estava fazendo lá. Ela simplesmente não sabia até então que eu era uma funcionária daquela empresa. Ela estava me tratando como trataria qualquer pessoa.

Sentei-me num sofá azul, suficiente para acomodar não mais que duas pessoas, num corredor pequeno, sem ventilação, numa temperatura em torno de quarenta graus. Ouvia o barulho dos aparelhos de ar condicionado nas salas adjacentes, enquanto tentava amenizar o calor abanando-me com um pedaço de papel que havia dentro da minha agenda. Diante do semblante hostil daquela moça alta, esguia e grosseiramente bela, fiquei com medo de perguntar quanto tempo eu teria que ficar esperando pelo chefe. Arrisquei treinar minha paciência e não dar a ela o gostinho de saber o quanto sua atitude estava me causando danos. Eu havia deixado meu trabalho para estar ali, não estava produzindo, sentada num sofá esperando por não sei quanto tempo. Mas quem se importa?


Quando três quartos de hora já haviam passado, senti sede. Não havia água por ali e eu não me atreveria a pedir, pois a suposta secretária passou por mim várias vezes, fazendo de conta que eu era invisível. Mais três quartos de hora se passaram sem que eu recebesse qualquer tipo de informação. Decidi esperar mais quinze minutos, quando vi a porta se abrir e o chefe se adentrar, esbaforido, despenteado, com cara de quem não estava a fim de me receber, não importava quem eu era nem o que eu queria. Parece que ele queria estar em qualquer lugar, menos ali!

 

Pensei que eu seria a primeira, porque eu era a única a ser recebida. Mas para minha surpresa, ouvi a secretária dizer-lhe que o Diretor Geral já havia solicitado a presença dele na sala, para uma pequena reunião imediatamente. Ele desapareceu pelo elevador privativo.
Então, tive a maior prova de que eu não era invisível. A moça alta e esguia, veio em minha direção arrastando seus tamancos barulhentos e disse "cordialmente" (!):

-    Ele já, já vai atende-la.

-    Obrigada, respondi, quase me ajoelhando para agradecer a Deus a grande prova de que eu estava visível!

Olhei no meu relógio de pulso, esperei mais dois quartos de hora e nada. Então, ele apareceu novamente, desta vez acompanhado por dois funcionários vindos diretamente da sala do Diretor Geral, creio eu. Entraram todos na sala. Eu, ainda no sofá, não conseguia acreditar que nos dias de hoje, ainda existem pessoas num cargo deste que proceda desta maneira! E decidi: "Não vou mais pedir minhas férias hoje! Vou embora e volto outro dia. Vou beber água, fazer chichi, trabalhar um pouco. Depois eu volto. Outro dia eu volto!"

Respirei fundo e fui até à mesa da moça. Com o tom de voz mais educado que me era possível no momento, eu disse:

-    Não posso mais esperar. Outro dia eu volto.

-    Está bom. Respondeu-me ela, voltando seus olhos para a agenda.

Desci novamente os dois lances de escada. A tarde estava quente, minha boca completamente seca. Fui embora triste, mas não por não ter conseguido minhas férias. Não por não ter sido atendida pelo chefe. Fui embora triste por não sentir orgulho em trabalhar numa empresa tão despreparada.

-    Se o setor de Recursos Humanos é assim, imagina o resto! Pensei, enquanto saboreava um delicioso sorvete de chocolate!

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga (CRP 06/15951-5) e Escritora.

e-mail: katiaabr@terra.com.br

 

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