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FACADAS
Deitada ali, naquela maca, o barulho da sirene e a velocidade da ambulância pareciam um
bálsamo. Pelo menos ela sabia que alguém estava tentando fazer alguma coisa por
ela...tentando ajuda-la em alguma coisa. Viver? Não, ela não queria mais...Tinha
esperanças que não daria tempo para chegar até o hospital.Queria apenas desfrutar dos
seus últimos momentos, seus últimos suspiros, com alguns toques do pessoal da enfermagem
na sua pele. Toques que não eram doloridos, pelo contrário, estavam aliviando sua dor
física. O sangue estava aparentemente estancado no seu abdômen. A roupa, já haviam
rasgado, tirado, sei lá. Era um de seus vestidos prediletos, que ela tirou do
guarda-roupa especialmente para esta ocasião. Queria espera-lo cheirosa, penteada,
bonita, se é que havia ainda algum traço de beleza na sua pele cansada, no seu rosto
sofrido, nos seus cabelos ressecados.
Há muito, não tinha mais vontade de passar hidratante no corpo e não fazia mais compras
no depósito Lívia quando passava pelo calçadão. Pra quê? - pensava ela. Ele não vai
nem sentir meu cheiro, nem olhar para o meu cabelo. Estava no fundo do poço, com a auto
estima abaixo de zero. Mas neste dia, se animou, pensou em dar a ela mesma uma chance de
recuperar um pouco daquilo que tanto sonhou: uma vida a dois feliz, uma história de amor
com começo, meio e nenhum fim. O fim estava sendo agora e felicidade para ela seria
morrer, desencarnar, deixar esta vida, qualquer coisa que não fosse...voltar para casa.
Alguém abre um recipiente e o cheiro de éter invade a ambulância. Éter, álcool. Ah,
não...até aqui? - pensa ela. Quero morrer logo, antes que este cheiro volte a penetrar
meus pulmões. Sente um forte enjôo, mais forte do ela andara sentindo nos últimos
tempos quando ele chegava e queria fazer-lhe um agrado, beijando-lhe levemente nos
lábios. Ela prendia a respiração , tentando disfarçar para que ele não percebesse,
mas ele percebia. E então, tudo começava...
- Quê foi? Vai começar de novo é?
- Não sei o que você está falando
- Estou falando de você querer implicar comigo quando vou tomar uma
cervejinha com meus amigos.
Uma cervejinha, não era a conta exata. Amigos, que tomam cervejinha todos os dias juntos
e não sentem vontade de voltar para casa para ver a esposa, os filhos, o cachorro...são
amigos de quem? Da cervejinha, talvez...Ela já tinha desistido de espera-lo para jantar a
muito tempo. Hoje, não! Ela o esperou e com sua comida preferida prontinha, toalha limpa.
Talheres arrumadinhos. Pediu até um vaso emprestado para Carol, a vizinha da frente, e
colocou algumas rosas apanhadas na roseira do jardim da vizinha da esquerda, com a
permissão dela, é claro!
O banho, mais demorado, a depilação rigorosamente correta. O vidro de perfume estava no
fim e ela misturou um pouco dágua para dar efeito. Seu coração disparou um pouquinho
mais forte quando ouviu o barulho do portão. Só poderia ser ele!
Pela batida forte da grade do portão, ela já sabia que ele havia passado no bar. Um nó
na sua garganta a impediu de sorrir ao vê-lo adentrar-se pela porta da cozinha. Suado,
com a roupa amarrotada, ele parou diante da mesa impecavelmente arrumada. Ela, estática,
ficou esperando por um abraço. Desviaria a boca para não sentir o cheiro do álcool,
falaria alguma coisa no seu ouvido para compensar!
Rapidamente, ele pega a faca ainda sobre a pia da cozinha, que ela havia deixado para
lavar após o jantar. Preferiu ficar mais tempo na frente do espelho, arrumando-se para
ele, ao invés de lavar e guardar a louça que havia usado para preparar aquele prato
especial.
Ele caminha ao encontro dela, com a faca na mão, abraça-a e sussurra no ouvido dela:
- Sua vagabunda! Estava esperando o Ricardão, hein? Pensou que eu ia
ficar no bar até altas horas! Peguei-te no pulo sua vadia!
Ela não consegue ouvir mais nada. O sangue jorra pelo chão. Ela cai e seus olhos
conseguem avistar Carol na porta da cozinha trazendo os guardanapos que ela havia pedido
emprestado.
Agora, está na ambulância...não, não está mais. Parece que já chegou...ao hospital?
Ela não sabe. Torce para que estas pessoas de branco, ao seu redor, sejam anjos, que vão
leva-la para bem longe desta vida...para um lugar que não exista bar, não exista
cervejinha, não exista nada parecido com o cheiro da boca dele, quando toma um inofensivo
aperitivo todos os dias, com os amigos, ao sair do trabalho.
Kátia Ricardi de Abreu
e-mail: katiaabr@terra.com.br