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ANGÚSTIA I
Seu olhar perdido na linha do horizonte parecia contemplar o sol poente. Parecia...Pois na
verdade ele estava contemplando os últimos acontecimentos e buscando explicações
lógicas para uma reviravolta de trezentos e sessenta graus em sua vida.
Dores pelo corpo, eram sinais de depressão mascarada; havia ematomas e uma ferida
invisível sangrando insistentemente. Ele tentou estancar com sertralina, mas parecia que
o efeito ainda não estava sendo suficiente para que a dor fosse ao menos suportável.
Ainda trazia na memória aquelas palavras duras, impensadas, que jamais teria dito se
tivesse ouvido seu coração. Somente uma introspecção minuciosa poderia ter evitado que
ele tivesse encontrado uma saída tão inconseqüente para não assumir suas reais
dificuldades.
Se ele soubesse... Se ele se adentrasse no âmago dele mesmo, não teria lançado ao vento
com seu olhar petrificado e suas palavras chicoteantes, aquela oportunidade que a vida lhe
deu para ficar tão perto da doçura.
Inconformado, ele leva as mãos na cabeça, agitando-se e alterando sua respiração numa
tentativa de ficar livre da culpa. Mas parecia ser tarde demais. Curar feridas invisíveis
é uma arte que ele até mesmo admirava em algumas pessoas que pareciam já ter nascido
com este dom. Mas ele...Ah, ele estava acabando de concluir que sua especialidade era
outra. Estava se sentindo um grande vilão, perdido dentro dele mesmo, inundado de
arrependimento, sem saber como agir daqui para frente. Olhar para o horizonte era uma
forma de pedir um tempo para seus pensamentos borbulhantes, clamar por uma trégua nesta
briga interior. Seus diálogos internos estavam causando arranhões na sua estrutura
psíquica. Ele colocou uma música suave para ouvir, na tentativa de livrar-se daquela
angústia que crescia e crescia dentro do seu peito, explodindo num sussurro:
- Eu não queria isso para mim. Por quê, meu Deus. Por quê?
Não havia resposta. O silêncio era passageiro. Logo as vozes interiores começavam
novamente a se falar dentro dele mesmo, acusando-o de ter destruído uma parte de si.
Ele se compara a um cirurgião que programou extrair um dente do seu paciente e por uma
distração, acabou extraindo outro. Então, o cirurgião distraído teve que extrair dois
dentes: o danificado e o bom. Ele não conseguia se perdoar por ter mutilado algo de
lindo, saudável, mesmo que conscientemente não tivesse esta intenção.
Agora, o estrago estava feito e ele não tinha a menor idéia de como poderia reparar o
mal que desencadeou. Seria melhor se ele tivesse sido o atingido.A culpa talvez não seria
tão grande.
Nunca mais as coisas seriam como antes. Quando as pessoas adquirem feridas emocionais,
elas nunca mais são as mesmas. Elas podem até mesmo ser melhores, mais amadurecidas,
mais resistentes à dor, mais experientes, mais cautelosas. Porém, aquela espontaneidade,
depois de estar diante de um estímulo doloroso, jamais apareceria novamente estampada
naquele sorriso que ele aprendeu a admirar.
Como ele poderia se classificar: Egoísta? Inconseqüente? Precipitado?
Não havia resposta...
Ele sabia apenas que seu coração estava apreensivo e lamentava muito pelo estrago que
fez. Se você não conhece um bicho grandão e ele aparece diante de você, a reação
pode ser sair correndo, com medo dele, ou tentar ataca-lo, feri-lo com um objeto pontudo,
sei lá. Você não imagina, simplesmente não passa pela sua cabeça que o bicho é
inofensivo, não vai causar danos, não vai machucar você. E ainda, ele estava ali perto
de você há muito tempo e você não tinha percebido. Só quando ele grunhiu, emitiu sons
verbais é que você o notou. Mas antes disso, ali estava o bichão com seu odor, ocupando
espaço enorme ao seu lado, olhando para você o tempo todo sem pedir nada, só olhando.
Isso vale para o amor? Ele conseguiu ao menos esta resposta: Sim, vale!
Kátia Ricardi de Abreu
e-mail: katiaabr@terra.com.br
ANGÚSTIA II
Passa um dia e outro e outro...Ele não melhora. Já era para a sertralina estar agindo
nos seus neurotransmissores de maneira mais satisfatória. Talvez tivesse que tomar um
comprimido contendo maior quantidade de droga.
Sem perceber, ele devaneia, começa a reviver os bons momentos de felicidade antes de
iniciar sua implacável prova credora. Agora, mergulhado na agonia da verdadeira
infelicidade, ele lamenta... Sua alma enfraquecida foi surpreendida pela indiferença e
pelo egoísmo. A verdade e a luz que ele procura está desfigurada pela sua própria
cegueira.
Ainda lúcido, sente-se vítima de um jogo. Mas agora é tarde demais. Ele caiu nas
armadilhas de sua própria burrice emocional. Mudou seu destino? Absolutamente, não! Tudo
foi inconscientemente programado para seguir seu destino, não para muda-lo. Ele sente que
sua covardia não permite mudanças tão significativas dentro dele mesmo. Fazer o que
sempre fez, mesmo que não apresente resultados satisfatórios, é mais seguro para ele do
que experimentar níveis mais profundos de conhecimento de si mesmo. Eu nasci assim,
eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim!.
Sua alma equivocada desejou a felicidade através da louca satisfação de sua vaidade,
comprimindo a ação do seu pensamento, fazendo calar sua consciência. Atordoado sobre
seu futuro, clama ardentemente pelo esquecimento. Mas ah!...Como é difícil arrancar de
sua memória. Talvez o tempo possa ajudar. Mas passa um minuto, uma hora, passa um dia,
passa outro dia e nada.
Ele não tem vontade de comer, não tem vontade de dormir, não tem vontade de fazer amor,
não tem vontade de trabalhar, não tem vontade de viver.
Quando pensou que estivesse resolvendo um problema, viu-se envolvido na trama de seu
próprio destino. As conseqüências acabaram sendo mais dolorosas do que ele imaginara. O
alívio foi apenas imediato. Estava experimentando os sintomas desagradáveis de uma
overdose de emoções mal resolvidas por causa de sua curta visão.
Qual uma tempestade avassaladora, os acontecimentos o golpeiam, o passado o machuca e o
futuro o desnuda. Chorando, tremendo, ele se recolhe com a esperança de que a tempestade
possa purificar sua alma miserável enquanto suas lágrimas secas sob a face penetram em
seu coração partido.
Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga (CRP 06/15951-5)e Escritora.
e-mail: katiaabr@terra.com.br