O LADO HUMANO DA CRISE ENERGÉTICA
(Publicado no "Diário da Região" - S. José do Rio Preto -SP e na 87ª edição do Jornal on line "Carreira e Sucesso")
Lampião de gás, lampião de gás, quanta saudade você me trás... (Zica Bergami)
A palavra crise costuma ser associada a algo negativo. Estou em crise, costuma ser dito como estou com problemas, estou mal. Porém, uma das características fundamentais de uma situação de crise, é o fato de que ela pode representar ao mesmo tempo perigo e oportunidade. Pode ser definida como um período temporário de desorganização de um sistema aberto, precipitado por circunstâncias que transitoriamente ultrapassam as capacidades do sistema para adaptar-se interna e externamente (Caplan, 1963) ou mais simplesmente, como uma perturbação temporária de um estado de equilíbrio (Rapoport, 1965). O mesmo ocorre em relação ao stress. Poucas pessoas associam stress com sucesso e poucas conhecem os benefícios do stress. Aprendemos a ter uma visão unilateral de determinados conceitos e assim, corremos o risco de construir paradigmas baseados em conceitos incompletos ou distorcidos.
A crise energética tem provocado, além de muita polêmica, mudanças de hábitos no dia a dia das pessoas. A reação das pessoas em termos de adaptação é diversificada. Assim, existem :
Os que nem sabem que a crise existe, por uma questão de falta de informação (como é grande o nosso país!) | |
Os que sabem que a crise existe, mas que não os afeta em nada ou quase nada. | |
Os que estão apreensivos em relação aos resultados econômicos e sociais decorrentes da crise. | |
Os que estão tirando proveito financeiro, social e psicológico, numa incrível capacidade criativa e de adaptabilidade às mudanças. |
Não sabemos avaliar o quanto vamos perder com a crise energética. Até então, a nossa preocupação foi pagar as contas em dia, trabalhar, gerar renda para desfrutar de conforto, ligando todos os aparelhos eletrodomésticos que o mercado conseguiu fabricar para facilitar as nossas vidas. O 13o. salário, era esperado para comprar ou trocar alguma máquina que fizesse algo por nós. As mulheres que trabalham fora, assumiram jornadas contando com estas máquinas no final do expediente e da semana. Agora, o próprio emprego pode estar correndo riscos.
E muito mais do que conforto, desenvolvemos frentes de trabalho tendo como parceiros algo ligado na tomada. O protótipo disto é a quantidade de empregos gerados pela informática que, necessariamente depende de energia elétrica.
Márcio Pochmann, professor da UNICAMP, afirma na revista VOCÊ S.A. (junho, edição 36), sobre os efeitos da crise energética no mercado de trabalho:desde 1981 não engatamos um ciclo de crescimento econômico sustentado. Houve recessão seguida de recuperação e estagnação. No início da década de 90, recessão novamente. De 93 a 97, recuperação, seguida de desaceleração. Em 2000, a economia tinha se recuperado. Mas para este ano, sabemos que haverá desaceleração.
Meu convite é para uma reflexão: de que forma estas mudanças vão repercutir na vida das pessoas? Ou mais especificamente, de que forma as pessoas podem continuar seu processo de crescimento, a busca daquele incrível estado de bem estar, desassociado parcial (racionamento) ou totalmente (apagão) da energia elétrica?
Sabemos que os nossos antepassados conseguiam viver, conviver, amar e trabalhar na ausência de energia elétrica. A vida era mais difícil, o conforto mais escasso? Ou tudo era apenas diferente? Tendo como previsão certeira a desaceleração da economia, de que forma podemos tirar proveito desta situação? Os efeitos danosos da crise energética para a economia do país se estendem aos relacionamentos interpessoais?
Horst Koehler, diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), nas páginas amarelas de VEJA (edição 1704, junho/2001, no. 23) afirma que se quisermos fazer parte de uma economia global e dinâmica, temos de conviver com a idéia de que não estamos livres de crises.
Será que temos olhos para enxergar o que podemos ganhar? Já ouvi o relato de uma família onde cada um assistia sua TV em seu quarto à noite. Agora, apenas uma TV fica ligada e todos ficam juntos na sala e até conversam nos intervalos (!). Uma garota me disse que ao invés de ficar nas salas de chat, vai passar a sair com as amigas para paquerar ao vivo.
Algo parecido ocorreu diante da crise dos combustíveis. As pessoas se organizaram fazendo rodízios para se conduzirem até o trabalho, ao invés de ir cada um com seu carro. Lembro-me que isso levou muitas pessoas do mundo corporativo que nem aos menos se cumprimentavam na empresa, a se conhecerem melhor e até arriscarem um relacionamento mais cordial.
Será que a redução nos investimentos no setor de energia elétrica desde 1990, somado com o processo de privatização deste setor e acrescido da estiagem vai poder contribuir para que nós seres humanos, possamos entrar em contato com a nossa energia interna e gerar uma vida mais humana nas relações interpessoais? Estarão de volta os serões noturnos onde pais e filhos contam como foi o dia? Será que conseguiremos fazer um uso da nossa energia interna para resgatar antigos valores que se perderam com o tempo em prol de um individualismo moderno? Será isto um retrocesso?
Nós seres humanos, já sobrevivemos sem energia elétrica. Este tipo de escassez já existiu na história da humanidade. Torço para que nunca, nunca mesmo, passemos pela escassez da energia interna , a chama da esperança, do amor, da caridade, da solidariedade, que existe dentro de cada um de nós. Sonho com o calor das mãos unidas, de todos os homens da face da terra, numa explosão gloriosa de luz em benefício de um mundo melhor. Apagão que me assusta mesmo, é o da alma, pois aquele que tem um porquê para viver pode enfrentar todos os comos(Nietzsche).
Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga (CRP 06/15951-5), Analista Transacional Membro Certificado Clínico pela ALAT e Membro Clínico Didata em formação pela UNAT-Brasil , Escritora.
E-mail: katiaabr@terra.com.br.